Pós-Agrishow: menos negócios, mais boletos e a espera pela queda de juros
Muitos fornecedores irão empurrar as dívidas e renegociá-las para aliviar a situação de produtores descapitalizados
Por: Jeferson Rodrigues
04 de maio de 2026
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A feira de Ribeirão Preto, que funciona como um termômetro da agroindústria, terminou sua 31ª edição com uma queda nas intenções de negócios que não se via há mais de uma década. Os números, que não são cravados na pedra — já que dependem de uma série de aprovações —, desencadeiam uma reação do produtor de maior cautela diante de novas tecnologias. Isso porque a feira também coincide com a semana mais importante do ano para o balanço financeiro do agricultor: a semana de pagamentos.

Entre os representantes da cadeia, especialmente os de revendas de insumos, o dia 30 de abril é uma data simbólica para o pagamento de boletos acumulados ao longo do ano-safra. É o chamado “dia D”, vencimento importantíssimo que marca o acerto de contas após a comercialização da safra. Em geral, o produtor que compra insumos a prazo para lavoura faz contratos para pagar ao final da safra.

O problema é que, mais uma vez, o produtor enfrenta margens menores, juros elevados e preços de commodities que não reagem o suficiente para compensar um ambiente macroeconômico mais restritivo. E, segundo um consultor que preferiu o anonimato, este ano o dia 30 de abril e a semana que o sucede parecem mais “Dia das Bruxas”.

Muitos fornecedores irão empurrar as dívidas e renegociá-las para aliviar a situação de produtores descapitalizados. Além disso, as trocas de barter ainda estão imprecisas e a expectativa é ter um melhor desenho de caixa por volta de 15 de maio. Há empresas que, para não ficar no prejuízo, ‘grudaram’ no produtor e acompanharam a colheita dos produtores para conseguir receber parte da dívida em grãos.

Esse movimento sempre acontece durante a Agrishow, só que este ano se as dívidas forem prolongas, será complicado, segundo análise do setor. A diferença principal é que, em 2026, ficou mais evidente o “no-show” de visitantes dispostos a fechar negócios nos estandes pelo acúmulo de boletos e diversas revendas sem receber.

A organização fala em 197 mil pessoas — dentro da média dos últimos anos, mas abaixo da expectativa de 200 mil participantes. Entre segunda e terça-feira, o movimento já parecia, a olho nu, menor do que nos dois anos anteriores. Entre quarta e quinta-feira, a visitação melhorou, e as mesas dos estandes de máquinas ficaram mais cheias — justamente onde gerentes comerciais negociam frotas inteiras, com condições mais atrativas para tentar fechar negócios ainda durante a feira.

Enquanto as conversas se prolongavam, era possível observar equipes reunidas em salas montadas nos estandes para dar ânimo aos vendedores. Ao mesmo tempo, muitas empresas organizaram encontros com grupos de produtores com a mediação de bancos, numa tentativa de viabilizar vendas já com algum tipo de financiamento encaminhado

Foto: Reprodução: Instagram

Fonte: CNN
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